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O que não nos ensinam na escola

Angélia, in Olhos de Cristal.

Cara Sienna,


Seguindo um percurso de vida normal nos dias de hoje, passamos entre doze a dezassete anos na escola. Eu passei treze. Se voltasse atrás, não alterava nada. Nesta altura, enquanto o teu pai estudava, eu ficava em casa e perdia-me em reflexões. Tive um conjunto de pensamentos aterradores e gostava de os partilhar contigo. Talvez te ensine algo que não aprendeste na escola.

Dizem que estes anos são cruciais para aprendermos a ser cidadãos integrados numa sociedade, para construirmos um sistema de valores, para sermos alguém no futuro. Ora, depois de tanto tempo, depois de tanto nos ensinarem, como é que saímos para o mundo real e há tanto que ainda não sabemos?


Fiz uma lista.


Para começar, ninguém nos ensina na escola que temos de preencher um monte de papelada ao longo da vida. Não nos mostram um único exemplo de um documento da segurança social, do banco, das finanças, e podia continuar a enumeração. Iniciamos a vida de adultos completamente às aranhas, sem saber o que fazer e como fazer. Queremos a nossa independência, contudo temos de recorrer constantemente aos nossos pais sempre que nos dizem que é preciso este ou aquele papel quando entramos num emprego novo, quando queremos pedir um empréstimo, quando estamos prestes a comprar uma casa.


Ninguém nos ensina na escola que a vida é uma guerra fria, onde todos à tua volta são inimigos e tu tens de lutar desarmado. Na vida é cada um por si, doa a quem doer, e até aqueles que acreditamos ser os nossos amigos nos apunhalam pelas costas se se sentirem ameaçados, se sequer pensarem que possamos ser melhor que eles. Porque é assim, é uma competição. E ninguém quer perder.


Ninguém nos ensina na escola que nem sempre ser-se o melhor é o suficiente para obter aquele emprego, ou conquistar aquele amor. Às vezes tu dás tudo de ti, lutas com todas as tuas forças e esgotas a tua energia até não conseguires mais, e mesmo assim não é o suficiente.


Ninguém nos ensina na escola que a dor pode ser muito mais forte do que um simples esfolar de joelho. Há dores que quase rasgam o teu coração em dois, outras parece que o arrancaram do peito e deixaram o teu corpo apático. E o pior é que ninguém te ensina como as superar. Ninguém nunca chegou ao pé de ti e te disse que é só deixar o tempo voar... E o teu coração, remendo aqui, remendo ali, vai ficar inteirinho novamente, mesmo que seja um coração inteiro de pequenos retalhos.


Também ninguém nos ensina na escola como é ou como devemos amar alguém. É por isso que umas pessoas amam desenfreadamente, não olhando a meios para conquistar o que desejam, enquanto outras amam tão completamente que se encostam a um canto e deixam os outros serem felizes. Há pessoas que amam com todo o seu coração e têm tanto amor para dar que parece que uma vida inteira não chegava para espalhar tanta magia. E há aquelas cujo amor é contido, todavia tão forte e com tamanha intensidade que até a noite escura fica iluminada.


Ninguém nos diz como devemos reagir quando percebemos que aquela pessoa a quem tanto nos dedicámos nos trai sem hesitar. A nossa mente fica atormentada com as alternativas. Deixamo-la num rio rodeada de crocodilos como ela fez connosco? Ou, aos poucos, convencemo-la de que seguir por aquele caminho é a melhor solução e depois deixamos que caia num precipício? Se calhar a vingança não é a saída... Não, talvez devêssemos seguir com a nossa vida e ignorar que perdemos parte dela a dar um pedaço de nós a alguém que não vacilou em atirar-nos como se fossemos uma pedra no seu caminho.



Ninguém nos ensina o que dizer a alguém que acabou de perder um familiar ou um amigo. Aquelas palavras mágicas que vão despertar um sentimento de conforto e até atenuar a dor. E mais, ninguém nos ensina como agir quando somos nós a perder alguém... Ninguém nos diz onde devemos ir buscar a força, a coragem e a lucidez para erguer a cabeça, enxugar as lágrimas e prosseguir a nossa vida quando aquele ser que nos era tão querido não vai estar mais ao nosso lado.


Ninguém nos ensina na escola que é com os nossos erros que aprendemos. A julgar pelo que nos é ensinado, até podemos ficar com a ideia contrária, uma vez que somos constantemente confrontados com certos e errados, mas raramente nos é indicado o porquê do nosso falhanço, ou nos deixam repetir por nós próprios o processo de melhoria. Na vida, temos a oportunidade de bater com a cabeça na parede e, da próxima vez que virmos a parede de pedra erguer-se à nossa frente, já sabemos que não devemos ir contra ela. Às vezes são precisas muitas paredes e imensas cabeçadas. Os humanos têm o péssimo hábito de cometer os mesmos erros uma e outra vez, na esperança de ser a vez em que a parede é feita de ar e não de pedra. Talvez se tivessem aprendido na escola que o cimento é feito de argila e calcário e não de substâncias gasosas, agissem de forma distinta.


Ninguém nos ensina na escola a acreditar em nós próprios, a confiar nas nossas capacidades, a valorizar as nossas qualidades e a conhecer os nossos defeitos com um sentido de melhoria. Lá tu estás certo ou errado, ou és bom ou não és. Contudo, a vida é um processo... não nasces com o futuro trançado. O que és hoje, pode mudar amanhã. Basta uma simples experiência negativa ou positiva para alterar toda a maneira como vês o mundo. No geral, são o conjunto e o equilíbrio dessas experiências que fazem de ti o que és. Um péssimo aluno não tem de ser uma péssima pessoa, nem um péssimo trabalhador, nem ter um posto de trabalho péssimo. Às vezes é. Tal como um ótimo aluno não tem um futuro brilhante à sua frente. Mas nunca ninguém nos disse isso.


Não me interpretes mal. Há muito que aprendemos na escola. Há muito que não aprendemos. Há professores que nos elucidam imenso, que nos marcam para a vida e cujos ensinamentos ainda hoje relembramos. Outros não.


Todavia, a verdade por detrás de todas estas reflexões, é que ninguém sabe, querida.

Compreendo, até certo ponto. Ninguém sabe o que é amar, ninguém sabe o que é sofrer, ninguém saber o quanto a morte dói, certo? Ou todos sabemos...


Mas cada pessoa sente de maneira diferente e cada uma lida com as situações à sua maneira.


Não se pode ensinar algo que nunca vai ser equivalente para todos. É para isso que a vida serve. Para descobrirmos, aprendermos, melhorarmos e crescermos com as nossas próprias experiências. Mas acho que nem isso nos ensinam na escola.


Já eu, queria ensinar-te algo.


Com amor,

Mãe

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